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quarta-feira, 9 de abril de 2014

domingo, 6 de abril de 2014

Estranho


Que inquilino chega pra ficar
sujeito teimoso, produto caro
Está em todo lugar, mas é raro
Não contento com um não, quer entrar?

Limpa a carne podre, anima a alma morta
Dá, não empresta, pede sendo rico
Faz sem temor coisas sem sentido
E mesmo fraco, abre todas as portas

Se reveste de paixão confundindo o são
E de desejo para aniquilar o medo
não sendo razão, em tudo tem razão

Quem o tem, nada lhe falta
dor que não sara, ferida aberta na alma
vence quem se rende e quem se prende é livre

Aviva o tom, converte tudo em bom
Sem estardalhaço diz em alto e bom som
Que a superfície é só a pele do profundo
Stanislaw Azir

AMIZADE: UM SONHO A DOIS

Muitos poetas, escritores clássicos, pensadores orientais, filósofos, religiosos e humanistas dissertaram sobre o que é a verdadeira amizade, conceituando-a, apontando-a.


Mas poucos compuseram caminho tão acertado para mostrar como adquirir um bom amigo, e principalmente para conservá-lo, quanto o grego Pitágoras.

Eis os seus “mandamentos”: “Escolhe para amigo o homem melhor e mais virtuoso. Obedece aos seus doces conselhos e segue-lhe o exemplo salutar. Esforça-te, tanto quanto possas por não te desviares dele por qualquer pequena falta”.

Quanta prudência revela esse primeiro conselho! Certamente é um grande investimento que dá retorno logo em curto prazo. É o negócio mais lucrativo que se possa fazer: adquirir amigos entre os melhores. Pois não se pode ser bom sem boas influências. E se o mal influencia de modo tão determinado um ser humano, o bem também pode fazê – lo.

Porque, então, não querer e não seguir conselhos sábios de um amigo fiel que só deseja nosso bem?
Sobre o último mandamento há de se notar que não se joga um tesouro no lixo simplesmente porque ele caiu no chão; sempre é possível se abaixar para reerguê-lo; do mesmo modo, sempre existe a chance de - se for preciso - se humilhar e perdoar qualquer pequena ofensa do verdadeiro amigo, indo ao seu encontro para levantar sua auto-estima.

Quando há real amizade entre os homens, não existe também mais lugar para o “meu” e o “teu”, tudo é partilhado no “nosso”. É pela doação ou, melhor traduzindo, o amor como “oferta de si” que se atinge a felicidade duradoura e não somente a aquisição de “momentos felizes”. Isso porque o homem é um ser aberto à comunhão (entendida como “união em comum”) por sua própria natureza. Como diria o poeta: “o amor é relação”.

Não é por menos que a filosofia personalista se preocupou tanto com as implicações filosófico-sociais dessa relação “eu-tu”. E. Mounier, maior expoente dessa corrente filosófica, afirma com muita propriedade : o “eu não existe, senão na medida em que existe para o outro, melhor dizendo, SER é AMAR”.

Uma das características essenciais da amizade é a “confiança”. “É amigo aquele a quem podes comunicar, sem medo, todos os teus pensamentos”, diz o axioma de Santo Agostinho. É claro que a confidência só brota de dois corações que não têm reservas entre si, não se antagonizam, mas se integram, complementam-se; apesar da diferenças.

Essa confidência gera um conhecimento mútuo crescente, uma intimidade. É o momento em que o coração de um amigo navega pelo do outro para se deleitar na sede de verdade dele, e vice-versa. É a verdade, a sinceridade de coração que anuncia a fidelidade que perdurará no relacionamento.

É certo, portanto, que conquistar um amigo íntimo é batalha diária. Só com a mentalidade semelhante a de um parceiro num casamento que desejar sempre e em primeiro lugar a felicidade do outro e não de si mesmo de modo interesseiro, egoísta, é que se alcança a harmonia e a fortaleza de um relacionamento que nem a morte faz esquecer.

J. Carlos Jr. e Filipy Alves
Stanislaw Azir e Filipy Alves

Os Binóculos do Andarilho - De Urbano D’Alto


A gente ama tanto Porto Calvo 
que se esquece dos seus defeitos
É aquele mal de apaixonado, 
a miopia dos inocentes 
e insensatos
Outro dia subi mais alto que Porto Calvo 
para observá-la de longe
Para satisfazer a minha fome de saber
por que as coisas estão do jeito que vão
minha vista pesada, peguei no sono

subi pois só do alto posso ver
só de longe posso enxergar
que há alguns que não amam Porto Calvo
Mas amam sugar Porto Calvo,
o que é bem diferente!

Porto Calvo tem ruas de andar num só dia
E de se apaixonar num só momento
Ruas limpas, gente simples

Berçário de nossa História
Celeiro de padres, irmãs, vocacionados,
virgens consagradas, leigos doados
talentos dos mais altos
pintores, escritores,
guerreiros do presente e passado
já não estão esquecidos
o seu passado ainda está presente

Porto Calvo já teve de tudo
Já teve ponte que no rio cai
Já teve prefeito que ficou tempo demais
E candidato velho demais para sustentar palavra e calças

Em Porto Calvo tem até Coca-Cola
E outras drogas permitidas
Até maconha acharam

Quem tem quatro rios não tem desculpa de ser sujo
A não ser pela água suja
Pior que isso é ta sujo na justiça, na polícia,
é bem pior que SPC ou Serasa

Em Porto Calvo o povo deveria ser mais cuidado
E ser mais cuidadoso com promessas grandes
e bocas miúdas
E por que ficou Calvo?
Genética ou Sabedoria?

A figura que te governa é estética ou política?
Por que deste ouvido ao filho mais novo da cobiça?
Deste a chance que não te foi dada
Por que a biblioteca daqui é quase nada?

E pra não dizer que tá tudo ruim acho
Que todos deveriam aprender com Porto Calvo:
Porque o povo que paga tanto imposto deveria ter transporte de graça
Ao menos para estudar
Pena que o ônibus é sucata!

A Política daqui não é construir é só acabar
Onde está
A rodoviária
Os pontos turísticos
Nossas praias?

Cadê
O povoado da usina
A festa de Santa Maria
Um frontal de entrada que valha?

Disseram-me que pra ser alguém tem que sair dessa cidade
Porque junto com a oportunidade
Vai-se a idade
E a vida que se sonha

Tudo porque tem homem ansiando
construir para si mesmo uma estátua
Mas pra meu Padim Ciço é uma dificuldade!
Em vez de aumentar o santo
Diminuíram a praça!

O preço da TV é superfaturado
O campo de futebol tem tanto buraco
que parece campo minado
Outro dia encontraram num desses as ossadas
de Gêngis Khan deitado de lado

E, Doutor, por que é que o sinhô impôs
à laicidade do Estado
Um fardo tão pesado
De por na varanda da Prefeitura
Um culto da Igreja Mundial da Graça?

Os jovens com quem convivi já não andam mais por tuas calçadas
Tá todo mundo indo morar na capital
Por falta de capital nessa urbanidade
Bem pudera!
Quem é que espera ser homem de bem
Sem oportunidade pra trabáio!?

Foi então que meus olhos se abriram
deitado na relva deste prado no alto
Viram um melhor Porto Calvo
Mas quando eu descer esta ladeira até este Porto Sagrado
já terá se passado muitos anos
E meus olhos ao se fecharem por vez, talvez não vejam mais
a Gloriosa Cidade
de Domingos Fernandes Calabar!

Viva Porto Calvo!
Morram seus percalços!

Eu e as letras: um romance, um poema

Para descrever o meu relacionamento com o português, eu precisaria contar o modo como fui alfabetizado. Foi aos pés da minha mãe. Pelas manhas ela me puxava até a mesa de trabalho dela em casa mesmo. Era costureira. E assim, na máquina singer branca elétrica ela ziquezagueava e me passava as coordenadas das tarefas. Eu adorava ler jornais. E ler pra mim naqueles dias eram interpretar as imagens para deduzir o resto. Foi aí que ela passou a usar o jornal em favor do meu letramento. Me mandava cortar as garrafais para construir as neo-palavras. Eu deitado a fazer colagens no papel e minha mae na esperança q as palavras grudassem na minha mente como aquela linha no pano e aquelas formas na minha tábula rasa.


Alguns professores eu nem lembro mais o nome.
Eu me lembro bem do nome do último e da primeira: Adelma e Antônio Almeida. Ela era aquela que ensinava português e todas as outras matérias . ele escrevia peças de teatro como ninguém. Fora isso me lembro daquele que me deu umas técnicas de poemar e daquela que falou que escrevo como quem tem autoridade e não apela em questões polemicas para o religioso e o dogmático.

A primeira professora de todo mundo sempre é uma professora de português, não tem jeito. Não é a matemática que nos toca primeiro, mas as letras.

Fiz caligrafia aos 15 anos. Minha letra melhorou cem por cento. Hoje tenho a letra que quero fazer pois tenho domínio da mão. Hoje uso até a canhota para exercitar meu outro hemisfério.

Na época de seminário sempre fui muito incentivado e cobrado para ser o melhor possível nas letras e no raciocínio. Não a toa um ano depois eu grassava meus primeiros poemetos.

A poesia foi me inspirando e exigindo de mim o melhor sempre e o belo. Hoje não sou o melhor escritor, mas considero ter um estilo já próprio. E se não sou o melhor, sou o mais apaixonado. Nunca me canso. Nunca me esqueço. Escrevo todos os dias. E se não escrevo novidades é porque reviso os arquivos e corrijo os textos antigos que às vezes me surpreendem mais do que os neófitos.

Sempre me perguntam qual o preferido. Não digo nada. Não me comprometo. São como filhos. Não posso ter preferências para não magoar meus filhotes. Os preferidos meus podem não ser os dos outros. Como saber qual o melhor? Não creio que a democracia seja sinônimo de verdade ou unidade.

Para concluir este breve histórico de relacionamento, gostaria de dizer que quero letras porque quero humanas. Gosto de português porque gosto de falar, me expressar.

 Temos sempre algo de muito importante a dizer ao mundo. Só temos de encontrar o melhor meio. Uns escolhem a pintura. Outros a música. Mas todos tem algo muito forte a dizer sobre nossas fraquezas.  Afinal, a palavra tem poder. Um poder de fazer viver e reviver. Mas também de afundar e destruir. A palavra está oculta na mente e expressa no papel. Está dentro e está fora. É ativa, dinâmica, modificadora da realidade.

Toda palavra gera efeito. E todo efeito pode gerar uma palavra, seja de espanto seja de receio. A palavra aproxima mundos e separa nações. As religiões se apegam às palavras para depois se pegarem nos ringues. Mas quem se desvencilha das palavras por qualquer motivo vai se arrepender de não usá-las com o devido respeito.

A palavra é sempre uma coisa boa; os homens é que a corrompem na intenção pelos impulsos. As palavras podem entrar pelo ouvido e sair pelo outro. Por outro lado há palavras tão arraigadas que nem o devorador dos universos, aquele que chamam de tempo, poderá exterminar. Porque a última Palavra nunca, jamais terá fim! Qual delas ecoará pelo infinito?